
Você lia minhas cartas, transformava minha vida numa infame piada que tinha como função única fazer seus dentes existirem, dentes antigos e artificiais, assim como seus abraços e inúmeros pedidos de desculpas, eu só respondia um silêncio gelado, pois acima de qualquer palavra estava sua vontade reinando absoluta: matar todos os meus e evidentemente me matar todos os dias. Não foi fácil conviver com seu reflexo nos meus espelhos, eu estava apenas tentando tirar a sujeira do rosto para dormir fantasiada, cheguei até a pensar que se prosseguisse usando disfarces minha essência nunca seria tocada pelas suas maldades, engano. Sua voz era a mais eloqüente de todas, adquiria forma e tomava um volume dentro do meu coração para logo em seguida parti-lo em pequenos pedaços amarelos.
Eu não podia fugir, nunca observei suas pernas tremerem exceto no dia em que você resolveu trancar todas as possibilidades de saída e disse com a incerteza estampada na pele que não éramos nós duas, mas que sim, estaríamos juntas, permaneceríamos ligadas até que uma de nós morresse. Eu respondi outro silêncio, estava tão apática que nenhuma promessa desnivelada poderia me assustar e continuei. Hoje até penso em contestar suas ações, mas felizmente você está morta e agora posso ser um conjunto unitário, receber todas as cartas, não sentir culpa por ver as lágrimas secarem nas roupas velhas. Agora você está morta e eu estou livre.
A minha fragilidade era o alimento das suas perversões impublicáveis, mil pequenos fragmentos de um vidro vulgar circundando meu pensamento, já posso usar metáforas sem medo da sua mão ignorante pesar. Eu não estou podre, apesar dos seus inúmeros esforços ao longo destes dezessete anos, não bastou me aprisionar do outro lado, era preciso, sobretudo controlar até um tempo especial que eu havia inventado para os sentimentos, hoje eu sinto. Olho seu cadáver e lembro-me de uma fotografia, você parecia tão terna e bondosa e eu um pequeno monstro esculpido para fazer todos rirem. Sinto muita dor, ainda. Encosto a cabeça no travesseiro e penso que agora estou completamente livre, inteiramente entregue ao universo e suas forças misteriosas, percebo até um pânico nascendo, no entanto sem você até o tédio adquiriu um sabor.
Gostaria de lavar seu rosto com água fervendo, arrancar seus olhos e cozinhá-los, cortar sua carne inteirinha e gentilmente alimentar ratos de esgoto, porém você está morta e eu livre, não posso cometer um crime, ainda assim quero dizer que a mancha escura no meu globo ocular esquerdo é sua, os fios de cabelo que caíram e agora estão decorando o ralo do banheiro também são seus inteiramente. Além da minha dor você roubou qualquer esperança que eu cogitei ter, estou a mercê das circunstâncias, caçando um fantasma que atende pelo meu nome.
Posso fugir, levar uma eternidade que rolará no meu relógio inventado, mas as marcas da nossa convivência estão em tudo, minha saliva ainda não está limpa, minhas lágrimas têm aquele gosto azedo do leite que você insistentemente servia para ninguém beber. Estou amarrada as suas artimanhas maquiavélicas para desafiar a morte, até penso que é impossível alguém atingir meu equilíbrio depois de ter o corpo coberto por terra, engano. Você está morta e dentro de alguns dias eu terei uma arma, eu apertarei o gatilho inúmeras vezes, usarei todo o perigo do mundo para compensar suas hesitações, a crueldade maior é ter de continuar, você está morta e eu estou livre.
Sinto frio e meus olhos estão sempre ligados a uma obscuridade delicada, imagino seu corpo e seu espírito, penso numa espécie de castigo, talvez não aconteça, no entanto só eu sei que para alguém como você a morte é nada, não queria simplesmente vê-la desfalecida, gostaria de tê-la matado ou quem sabe envenenado seus pulmões com a fumaça dos cigarros que me foram negados, apesar do meu desejo um fato mantém-se inalterável: você está morta e eu estou livre.




