01 septiembre, 2008

Ausência redentora.




Então é assim que termina? Você deixando bem claro que sempre teve como objetivo me matar, mas que apesar da vontade nunca reuniu coragem o bastante para simplesmente apertar o gatilho e notar meu sangue jorrando, meu sangue sujando suas mãos, uma pequena e triste poça vermelha escorrendo e compondo desenhos nos seus azulejos tão limpos. Eu não acredito que o medo tenha feito você ingerir o vidro inteiro de comprimidos, a compaixão também fugia de seus olhos amargos, restou então uma necessidade avulsa de torturar, porque uma poça vermelha não teria sentido, mas milhões de pingos poderiam servir como vestígios de um caminho, se eu derramasse lágrimas e atribuísse a culpa aos seus ombros cansados, oh você nunca ficaria perdida, afinal além do peso ainda teria de ouvir meu choro manso em todo lugar.


Você lia minhas cartas, transformava minha vida numa infame piada que tinha como função única fazer seus dentes existirem, dentes antigos e artificiais, assim como seus abraços e inúmeros pedidos de desculpas, eu só respondia um silêncio gelado, pois acima de qualquer palavra estava sua vontade reinando absoluta: matar todos os meus e evidentemente me matar todos os dias. Não foi fácil conviver com seu reflexo nos meus espelhos, eu estava apenas tentando tirar a sujeira do rosto para dormir fantasiada, cheguei até a pensar que se prosseguisse usando disfarces minha essência nunca seria tocada pelas suas maldades, engano. Sua voz era a mais eloqüente de todas, adquiria forma e tomava um volume dentro do meu coração para logo em seguida parti-lo em pequenos pedaços amarelos.

Eu não podia fugir, nunca observei suas pernas tremerem exceto no dia em que você resolveu trancar todas as possibilidades de saída e disse com a incerteza estampada na pele que não éramos nós duas, mas que sim, estaríamos juntas, permaneceríamos ligadas até que uma de nós morresse. Eu respondi outro silêncio, estava tão apática que nenhuma promessa desnivelada poderia me assustar e continuei. Hoje até penso em contestar suas ações, mas felizmente você está morta e agora posso ser um conjunto unitário, receber todas as cartas, não sentir culpa por ver as lágrimas secarem nas roupas velhas. Agora você está morta e eu estou livre.

A minha fragilidade era o alimento das suas perversões impublicáveis, mil pequenos fragmentos de um vidro vulgar circundando meu pensamento, já posso usar metáforas sem medo da sua mão ignorante pesar. Eu não estou podre, apesar dos seus inúmeros esforços ao longo destes dezessete anos, não bastou me aprisionar do outro lado, era preciso, sobretudo controlar até um tempo especial que eu havia inventado para os sentimentos, hoje eu sinto. Olho seu cadáver e lembro-me de uma fotografia, você parecia tão terna e bondosa e eu um pequeno monstro esculpido para fazer todos rirem. Sinto muita dor, ainda. Encosto a cabeça no travesseiro e penso que agora estou completamente livre, inteiramente entregue ao universo e suas forças misteriosas, percebo até um pânico nascendo, no entanto sem você até o tédio adquiriu um sabor.

Gostaria de lavar seu rosto com água fervendo, arrancar seus olhos e cozinhá-los, cortar sua carne inteirinha e gentilmente alimentar ratos de esgoto, porém você está morta e eu livre, não posso cometer um crime, ainda assim quero dizer que a mancha escura no meu globo ocular esquerdo é sua, os fios de cabelo que caíram e agora estão decorando o ralo do banheiro também são seus inteiramente. Além da minha dor você roubou qualquer esperança que eu cogitei ter, estou a mercê das circunstâncias, caçando um fantasma que atende pelo meu nome.

Posso fugir, levar uma eternidade que rolará no meu relógio inventado, mas as marcas da nossa convivência estão em tudo, minha saliva ainda não está limpa, minhas lágrimas têm aquele gosto azedo do leite que você insistentemente servia para ninguém beber. Estou amarrada as suas artimanhas maquiavélicas para desafiar a morte, até penso que é impossível alguém atingir meu equilíbrio depois de ter o corpo coberto por terra, engano. Você está morta e dentro de alguns dias eu terei uma arma, eu apertarei o gatilho inúmeras vezes, usarei todo o perigo do mundo para compensar suas hesitações, a crueldade maior é ter de continuar, você está morta e eu estou livre.

Sinto frio e meus olhos estão sempre ligados a uma obscuridade delicada, imagino seu corpo e seu espírito, penso numa espécie de castigo, talvez não aconteça, no entanto só eu sei que para alguém como você a morte é nada, não queria simplesmente vê-la desfalecida, gostaria de tê-la matado ou quem sabe envenenado seus pulmões com a fumaça dos cigarros que me foram negados, apesar do meu desejo um fato mantém-se inalterável: você está morta e eu estou livre.

26 mayo, 2008

Existem pedras nos meus lençóis.

13 mayo, 2008

Dividir-se.


"Eu passava horas inteiras examinando-me mentalmnte, a cabeça apoiada na sua e segurava-lhe as mãos . Parecia-me que um certo magnetismo reunia nossos espíritos e senti-me radiante quando uma palavra saiu-lhe pela primeira vez da boca. Não se podia acreditar; e eu atribuía, à minha minha ardente vontade, esse princípio de cura."






Eu não arranquei a farpa. Você devia vir porque eu espero. E não só pela espera, afinal as ausências são coisas lindas e prateadas, devia vir porque implorei, e eu não gosto de ajoelhar-me no milho antigo e ficar chorando, ainda assim eu continuo, preenchendo as lacunas com a carne apodrecida. Então venha. Eu canso de não falar e fingir que entendo o medo ou a falta de disposição. Eu cansei. Venha então. Nunca ouve escolha, apenas uma aceitação não muito sutil, eu me debati, tentei auto-medicação, no entanto os caminhos tortos conduzem sempre a uma estrada perdida que eu carinhosamente chamo de distância, e eu me perco. Não é um alerta, muito menos uma carta sequer um recado, é apenas uma argumentação, o aceitar pleno, o esperar público e sorrir toda vez que o coração parar de sangrar para que os olhos posssam rolar pelo mapa, indiscrição. Não-me-desculpe-eu-continuarei-sendo-egoísta.


17 abril, 2008

Edição Especial.



Acordava. E havia um grande espelho em sua frente, talvez gostasse de encarar o próprio reflexo torto e descabelado, mas isso num passado cinzento onde as pernas doíam de tanto caminhar e todas as canções sobre beber sangue faziam sentido, restava à vergonha e o desvio, melhor contar os ladrinhos sujos e forjar uma intimidade com a água, acordava. Pequenas aceitações e uma longa espera, talvez restasse algum orgulho ou a esperança de ser subitamente atropelada ou ainda surtar e jogar-se da janela após engolir um garfo, o isolamento era o grande consolo e o tic-tac do relógio uma conseqüência deliciosa, talvez gostasse de qualquer tipo de tortura para pessoas amorais, não respondo, afinal está morta.


Chamava-se Flora. Detestava tanto seu próprio nome, então quando tinha dez anos resolveu que só assinaria F, mas a letra teria de representá-la por inteiro, então só faria sentindo se riscasse bem grande e colocasse um ponto logo após a grafia, “efê”, adorava tanto essa invenção que começou a limitar-se e vivia na beirada de todas as coisas, não sabia nadar, e ainda assim gostava tanto de piscinas, azuis, limpas e inventadas, talvez fosse este o ideal de Flora. E eu a chamarei Flora, pois é feio não aceitar o que nos foi imposto, repito Flora-Flor-Flora. Flora morreu. Os cabelos eram comuns, castanhos, acredito que o sonho dela era ter cabelos escuros, no entanto qualquer mudança exige coragem, e é tão melhor continuar apenas espreitando, figurante de uma história dadaísta, vivendo-apenas-para-chocar-não-fazendo-sentido. Ela gostava de arte e julgava artístico o cabelo da atriz de seu filme favorito, tinha fé no realismo daqueles fios encaracolados e tão brilhantes, às vezes tentava chorar para demonstrar o orgulho que sentia ao saber que podia olhar para aqueles cabelos, fracassava, gostava tanto do movimento solene que a cor-dos-cabelos-de-sua-atriz-favorita fazia na tela, F. estava encantada, apaixonada, deslumbrada e era apenas uma peruca ruiva e cacheada, artificial, sintética e forjada.


O espelho estava tão sujo, algumas pequenas aranhas, mas não havia sangue, o falecimento de Flora fora tão patético quanto sua vida, páginas-viradas, discos-arranhados, nada naquele pequeno espaço era dela, a essência havia se esvaído num dia de chuva em meio a carros coloridos e uma fumaça qualquer que surgia para infernizar seus pulmões e incitar nas pernas o desejo da volta para casa. Ela adorava ratos, os cultivava sem notar e precisava que o barulho produzido por eles interrompesse suas refeições, um sorriso grande invadia seu rosto quando notava que haviam ratos e que eram muitos, talvez pequenos, talvez brancos, não importava, eles existiam e dividiam com ela o espaço de um jantar feito por obrigação ou até um banho abortado.



Segunda-feira. Meu dia preferido ainda é domingo, no entanto o esquálido corpo de F. foi encontrado numa segunda-feira vazia, não há como evitar o mal cheio que entra por nossas fossas nasais e perturba a concentração. A farsa estava desfeita. Flora saiu de casa naquela segunda amarelada, estava tão contente, acabara de assistir seu filme preferido e lá estavam àqueles cabelos, milhares de fios avermelhados e excitantes ali, ao alcance de seus olhos bobos. Avistou uma edição especial do filme, algumas cenas inéditas e até uma entrevista com a linda-atriz-dos-cabelos-perfeitos, pensou que se não houvesse dinheiro venderia a alma, um espírito não tem utilidade e o filme servia para dar sentido aos dias avulsos. Adquiriu e correu para assistir. Pecou. Já conhecia todas as cenas, então uma coragem repentina surgiu, apertando os botões com entusiasmo chegou à entrevista. Morreu. Era apenas uma peruca, e a atriz gargalhava a segurando, ria estupidamente. Labirintos vermelhos, delicadas gotas de sangue que formariam lindos desenhos, uma dignidade que não cabia em sua rotina, optou por asfixia, uma sacola qualquer e o desejo de subtração, sufocou-se dentro da própria criação, apenas uma peruca num final-de-tarde, segunda-feira.

14 marzo, 2008

Mundo mágico chamado solidão.


“E tudo começa a parecer muito mais difícil do que realmente é.", escrevi na parede laranja, detesto essa cor, lembra-me uma mariposa que recebi dentro de um envelope vermelho, até hoje me pergunto como ela morreu, afinal o fim é o que realmente dignifica nossas histórias, e não nossas sim, pois nada é único- pessoal - intransferível, exceto a solidão. Os dias de chuvas pesam, ninguém mais morre graças aos novos guardas de trânsitos, acidentes não mais acontecem e os amores puros e degradantes tornaram-se efêmeros, caí no tédio, a falta profunda de qualquer relato, talvez um desafio, ainda assim escrevo, anoto para morrer ou matar e a cada vírgula dói mais, o não-existir também cria feridas.


Durmo. Não tenho prazeres, entretanto me afogo nas ausências e durmo, porque o sono também é uma tentativa de se salvar. Gosto de bancas de revistas, tantas coisas, tantas cores, se houvesse uma identidade que fosse exata na minha identificação eu provavelmente usaria dela para monta uma banca de revistas-jornais-livros. Um pequeno comércio de folhas multicoloridas numa esquina, a amizade com os idosos e suas palavras cruzadas, a ansiedade das crianças que ainda persistem na tentativa de completar o álbum de figurinhas e toda uma rotina tipicamente complementar, é sonho.


O peso da existência são as memórias que guardo, um amontoado de imagens perdidas num labirinto peculiar, figuras, palavras, impossível reunir e obter alguma lógica. Agora sou pessoal, apesar de não preferir absolutamente nada e render-me ao que chega com o fluxo, alguns chamam de fatalismo, eu simplesmente repito para fingir que o outro existe. Repito e anoto, porque ser feliz é estar fadado a não acumular memória alguma, feliz é quem aceita repetir-se sem mudar as palavras, sortudo é quem ainda assim torna-se essencial e não simplesmente suportável.


Pronomes indefinidos não posso dizer que gosto deles, mas os decorei graças a umas aulas que ouço na rádio de músicas sobre Deus ou qualquer entidade espiritual desse nível, hoje em dia se aprende mais prestando atenção nos ponteiros do relógio do que ouvindo a voz da inexperiência, desatualizei-me. E continuo sem informações, prossigo só para preencher as linhas azuis, a margem vermelha no canto da folha ainda é uma provocação, a linha fixa entre o lado de cá e todo resto de lá, aqui o desânimo em tons tão claros que quase cegam de tanto reproduzirem-se em espelhos e do outro lado da rua uma vida, uma vidinha qualquer esperando um final, talvez um suicida ou apenas um tapa severo do tempo, em mim o silencio e em todos os outros o berro eterno dos lábios borrados de vermelho.


Acordar, escovar os dentes e tentar quebra-los logo após a raiva, arranhar as pernas, marcar as maçãs do rosto, desejar o nada e parar por cinco segundos para apreciar o vento intenso o bastante para varrer as folhas, um acidente seria bonito, um novo e visceral relato, a imprevisão é melhor ainda. Vermelho-marrom-preto, asfalto-sangue-cabelos, o meio-fio branco dividindo, quando se anseia por algo é possível até imaginar detalhadamente e nesse instante sorrir com os olhos vendados.

07 marzo, 2008

Dica.




Conversinhas-de-meninas-ácidas-conflituosas-vestindo-doces-disfarces-ou-nenhum.

04 febrero, 2008

Bad reputation.

"Ssssssh
Visualize
That's right
Pray baby
One two three
Shoot, shoot, shoot, shoot"






Existem pessoas que idealizam um-amor-e-uma-cabana, eu definitivamente não nasci nem para essas coisas, muito menos para as cidades pequenas, tudo satura em pouco tempo, as cores claras, as senhorinhas idosas falando da vida alheia. Detesto provincianismo, no entanto isso existe em todo lugar, e é nas metrópoles que sinto meu coração pular, a vida que pode ser perdida em qualquer esquina, todas as infinitas possibilidades de não ter controle, um êxtase que não se descreve.


O homem ideal, acho que todas as teenargers-leitoras-de-revistinhas-baratas também entraram nessa busca, eu faço o contrário, procuro o ruim, gosto do que está longe de ser conhecido e que dirá dominado. No fundo meu sonho neo-feminista-patético é um bom homem, um bom homem de cabelos ruivos e sardas meigas, cozinhando, passando, limpando e dentro dessa rotina desgastante arrumando tempo para todas as minhas crises e oscilações de desejo. Existe!? Definitivamente eu não sei, mas sonhar ainda é um direito avulso e tão pueril, eu faço uso, o tempo todo.


As projeções não assumem responsabilidade, o tempo não respeita nada além de sua vontade de dar milhares de voltas ao redor de nossas rugas e acentua-las, transformando nossas convicções em mera recordação de expectativas. Envelhecer exige muito equilíbrio e eu continuo pulando numa perna só de costas para o cruzeiro do sul, e ainda acho que é tudo que devo fazer. Esperar a idealização se materializar, isso numa grande cidade, desempenhando qualquer função exaustiva e também decisiva, para deixar que o tempo me mate.


Não nego, sou uma pessoa ruim, irritante, bizarra e amarga, mas ainda consigo sonhar, existe um canto perdido no meu eu que é comovente, um espaço para todas as raras pessoas que amo e amarei. Claro que nada justifica minha vontade de ferir e destruir com pequenas bombas, eu não carrego culpas, simplesmente não posso ignorar a vontade de mostrar que existem sentimentos-sonhos-desejos, e todas essas coisas são mais importantes do que rins-coração-sangue-fígado, é evidente. Eu imponho que se tenha paciência, no fim se descobre algo além de um super-ego-malvado, mas é preciso buscar as pistas, ninguém é fácil quando tem certeza de que é real. E sim, talvez seja só um recado avulso-feio-e-adolescente, porém é consciência, sempre.